terça-feira, 20 de março de 2012

Feli

Peço, humildemente, sua licença, para lhe contar um segredo: Sou um amigo muitíssimo íntimo da Sra. Felicidade, ou Feli, como eu prefiro chamar. 
Algumas tardes, conversamos durante horas sobre as manchetes dos jornais antigos, sobre a tristeza alheia, sobre poesias indecifráveis de Vinícius, sobre onde ela estará na semana que vem... Agora uma pausa pois, peço-lhe perdão, por não poder contar os detalhes, mas Feli, simplesmente me mataria (se bem que morrer de Felicidade não deve ser tão ruim assim, não?). Pois bem, nossas conversas sobre o tempo, são deliciosas! Não pense que são só conversas, caro confidente desconhecido, eu sei de algo que ninguém jamais ousou saber: Feli tem olhos castanhos, que no Sol se transformam em misteriosas florestas daquelas que ninguém é capaz de se infiltrar. Ah! Mas que alegria é poder mergulhar nesse olhar tão límpido. 
Acho que amo Feli.
E ainda não sei se devo confessar tal paixão, tenho medo que ela resolva viajar para o Norte e me deixe aqui, perdido nos ventos sulinos. Não! Perder Feli, mais uma vez, eu não seria capaz.
Pois mal (e isso por acaso existe? Desculpe-me, estou tentando variar meu ordinário vocabulário), mas isso não acontecerá. Feli uma vez me contou, bem aqui, em meus ouvidos, que eu era seu único amigo. Oh! Que declaração, meu coração se encheu de sua própria presença, Sra. Felicidade.

E por que estou aqui, nesta tarde, sem Feli? Ela disse que visitaria um pobre infeliz, que já clamava seu nome há anos - ainda bem que a senhora é de boa índole. Mas eu espero, de toda minha alma, que ela volte de noite, pois dormir com o meu coração em Feli não há nada melhor.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A dança


Nunca dançamos. Acho que nunca nos passou na cabeça de dançarmos ao som de alguma música instrumental, daquelas bonitas e melancólicas, muito menos nesses barzinhos da vida que tocavam as músicas cafonas que nós (secretamente) gostávamos. Uma pena.

Hoje eu abri aquela caixinha. Não tinha música. Não tinha uma carta sua escondida. Mas havia duas miniaturas de nós mesmos, ironicamente, dançando sem ritmo, nem expressão. Não tinham voz, o toque parecia-me tão frio e nem um olhar existia para compensar isso tudo. Ainda bem que nunca dançamos.

E a caixinha se fechou. Nada mais aconteceu, a tão conhecida inércia tomou conta do quarto e ali fiquei, escutando as vozes e as imaginárias melodias que os devaneios traziam consigo. Lembrei da dança que nunca existiu. Que falta ela me faz.

"E por que não dançam agora? O Sol já vai nascer."
Acontece que, para nós, o Sol já se pôs. E nunca dançamos.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

8hs

Há tanto tempo que não forçava minha mente a reavivar certas lembranças. Confesso que muitas dessas, quando assim faço, são as piores - e, se algum dia, alguém entender o por quê de um pobre velho como eu gostar de (re)sentir sua dor, por favor, avise-me.

Ela me beijou como sempre beijava antes de dormir (é incrível como uma mulher consegue fazer isso tão apaixonadamente depois de tantas e tantas décadas). Eu a olhei dormir, com aquele inspira-expira tão vagaroso, como sempre amei admirar. Era a nossa tradição noturna. Tão sistemática. Tão rotineira. Tão amável.
Eis que meu tão infalível relógio biológico me acordou, dando início ao desinteressantíssimo ritual matinal que mal ouso a descrever. 
E essa manhã ordinária pareceu nunca encontrar seu fim. O sol continuava estagnado, sonolento por entre as seis da manhã. Até que o meu leal relógio, sussurrou-me.
O ritual, enfim, foi quebrado. A tradição mantida fielmente todas as manhãs tinha sido rompida. Assim, minha alma.

E o que um velho como eu, que pouco tem a fazer no seu dia a dia, faz aqui, escrevendo em seu tão velho, tão querido bloco?
Ainda espero o Sol despertar, às oito, acordando consigo a outra parte de minha alma que lá ficou adormecida, respirando tão lentamente como nunca se cansara de fazer.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011




Eu, como um medíocre narrador, e mais ainda, como um pobre admirador de cenários que nada fazem parte de minha vida, confesso que, há uns dias, assisti a cena mais bela de minha vida.              
De amor, eu evito ao máximo falar. Afinal, para que narrar histórinhas que tantos já estão cansados de ler? Gosto de ter minhas palavras admiradas, não lidas de forma corriqueira e, inevitavelmente, esquecida num piscar de olhos. Não. Estas devem ser contempladas, assim como qualquer outra. Perdoem-me a distração, mas a questão é que aquele casal, de fato, prendeu o meu olhar.
Quem passasse por ali, talvez, pouco perceberia o casal... ordinário (Mas que calúnia!). Pobres pessoas distraídas, mal sabiam o que perdiam.
Sentados, inexplicavelmente, dançavam ao som de uma suave melodia que estava sabe-se lá onde. Estaria eu ficando louco? É isso que pensa? Imagina! Mas eu vi, e somente eu, enxerguei a simplicidade e a vontade de acompanhar a tal valsa através daqueles dois sorrisos.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Duvido um pouco.

Eu não entendo.
Algumas pessoas (de bom coração) dizem admirar a minha forma de escrever (e neste momento eu me gabo por alguns instantes).
Mas logo depois, chego a duvidar.
Afinal, todos, de certa maneira, conseguem escrever.